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por Sofia:


Porque é que nos devemos "lembrar, lembrar o 5 de Novembro"? 

Sim lembramo-nos da graphic novel "V for Vendetta" e do filme com o mesmo nome... mas o 5 de Novembro é muito mais do que isso. 
O romance gráfico de Alan Moore e David Lloyd transformou um acontecimento histórico-religioso, numa história em que um vingador anarquista procura justiça política e social. A história tem como cenário um passado com aspecto futurista e envolve um estado autoritário, uma polícia secreta, campos de concentração, problemas minoritários, controle estatal sobre os órgãos de comunicação, etc. A mensagem por detrás dos livros é clara - o Estado é um limitador da liberdade. 

Na passagem da obra para o cinema (num filme de James McTeigue), a mensagem mantêm-se. Temos um "ditador" muito semelhante a Adolf Hitler e muitas semelhanças gráficas ao Partido Nacional Socialista Alemão. Curioso como quantas vezes na história da humanidade, a teoria política denominada socialismo - apreciado por muitos pelas suas características "à esquerda" esteve na origem, de vários dos piores episódios históricos - neste caso, a Segunda Guerra Mundial. 

O filme continua a usar o tom de critica a tudo o que é instituições e tem também uma forte critica ao clero - cujos membros são pedófilos, assassinos e rodeados por escândalos. Existe no filme uma sublime ligação à obra de Dumas: "O Conde de Monte Cristo" e à personagem Edmond Dantes - cujo verdadeiro nome é revelado quando a vingança é conseguida. 
Na minha opinião, porque é que o filme é fascinante? Porque na sua essência é uma contradição com o episódio histórico que lhe serviu de mote e inspiração. 

E que episódio é esse? 


Foi no dia 5 de Novembro de 1605 que Guy Fawkes falhou o seu plano de explodir o Parlamento inglês, falha esta que ficou para a história como o "Atentado da Pólvora". Guy Fawkes (ou Guido Fawkes,), era um soldado inglês católico perito em explosivos, encarregado de guardar a pólvora e de a fazer explodir. O objectivo do grupo de católicos era assassinar o protestante rei Jaime I de Inglaterra e todos os membros do Parlamento. Robert Catesby foi o líder dos católicos que para além da explosão pretendiam raptar uma criança da família real e iniciar uma revolta popular. 

O que queriam os revoltosos: direitos iguais entre católicos e protestantes sendo para isso o objectivo final (além da explosão e consequentes mortes): declarar a filha do rei "chefe de estado católico". 
A Casa dos Lordes foi recheada por vários barris de pólvora... mas num acto de consciencialização, o grupo revoltoso depressa percebeu que inocentes iriam morrer, assim como defensores da causa católica, e num acto de clemência depressa avisaram alguns dos membros parlamentares para manterem distância do edifício. Para azar, estes avisos depressa chegaram aos ouvidos do rei e após uma inspecção ao edifício deram de caras com Fawkes e com os seus explosivos. O soldado foi preso, torturado e obrigado a denunciar os companheiros, acabando todos por serem executados por traição e tentativa de assassinato. 
Ainda hoje, sempre que um membro da família real inglesa se desloca ao parlamento, as caves do edifício são vistas e revistas. 



É este aspecto contraditório que eu acho piada em V. O facto de recorrer a uma história católica para combater os abusos políticos, sociais e até religiosos de uma sociedade podre. É usado um episódio em que existiu compaixão pelo próximo para justificar a violência inerente ao anarquismo utópico. 
Gosto de lembrar sempre que anarquismo deve ser sinónimo de ausência de coerção e não ausência de ordem ou deslumbramento pelo caos. E para completar esta frase, aconselho a leitura da obra de Thomas More - historicamente lembrado como "Um Homem para a Eternidade" (título do filme biográfico) - a Utopia. Escrito em 1516 e sinónimo de fantasia, quimera, delírio. 
A novela gráfica, o filme, a referência a Dumas e a minha menção a Thomas More, deve ser vista e pensada para além do óbvio. Tudo isto serve para reflectir e para pensarmos naquilo que somos enquanto pessoas e sobretudo aquilo que somos enquanto pessoas inseridas em sociedade. A história ensina e a história repete-se, e por isso, existe a possibilidade de não cometer os mesmos erros... 

“Ora, se Deus não deu a homem algum o poder de tirar a vida de outrem, ou mesmo a si próprio, como poderia ficar isento do mandamento divino quem, embora cumprindo uma lei humana, tirasse a vida a outrem?” 
Thomas More (Utopia)

por Cine31:



Vou ser breve, porque sobre os acontecimentos de 5 de Novembro a Sofia já falou, e melhor do que me seria possível. Por isso, indico apenas os atalhos para os vários posts que dediquei a "V de Vingança" no CINE31, e creio que são pertinentes para os interessados no evento histórico que inspirou a graphic novel, que inspirou o filme, que inspirou um movimento de "anónimos" do mundo real:



E para terminar, um link para fazer Download da graphic novel, em português (do Brasil), em 5 volumes: "V de Vingança" [Quadrinhos Antigos]

E assim são... Os Dias do Cinema



2 comentários até agora:.

  1. Ora bem... com esta vossa rúbrica, aprende-se umas coisas recorrentemente (ou pelo menos fica alguma coisa), tornam-se do maior conhecimento, situações e partes que apenas por vezes se tem uma vaga ideia (ou até mesmo apenas uma ténue referência via resumo popular).
    Acreditem que nem sempre há espaço a sobrar para se comentar esta rubrica, pois o cariz informativo acentua esse facto. Lê-se e parte-se...

    Contudo, tenho a dizer que entre muitos interessantíssimos artigos didácticos, até mais admiro quando um mesmo artigo é feito com a exposição das opiniões dos membros, que é algo que os blogues mistos habitualmente até não levam muito em conta fazê-lo.

    Sobre este 5 de Novembro admito que apenas sabia que tinha sido o dia de um atentado por razões religiosas e pouco mais. E tal como muitos o fazem... sabe bem referir ‎"Remember, remember the Fifth of November"... porque é dito num filme que deixa várias marcas. E como é este filmaço do V, acho que se tornou um filme da cultura pop pelas quotes.
    Este artigo desmistifica os chavões em que se tornaram as quotes e contextualiza os factos que Alan Moore se serviu para o argumento da sua graphic novell.
    Well done!

  2. CINE31 says:

    Obrigado :) Então o nosso objectivo foi alcançado :D E realmente, é estranho ver poucos blogs mistos aproveitarem a mais-valia de poder fazer posts com mais que um ponto de vista. Pessoalmente, na altura que o filme estreou, nunca julguei que o filme se tornasse tão depressa um filme de culto mas pop, apesar de ser uma versão mais "soft" da graphic novel, o que neste caso, até nem considero negativo, porque tornou mais fácil a distribuição do filme e a consequente descoberta da BD.

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