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Imaginem que este texto  tem como subtitulo: "quando um filme vai além do cinema"

É incontornável a necessidade de conhecer um bocadinho da biografia da "Viúva Capeto" antes de se esmiuçar o filme em causa. A Maria Antonieta que o filme aborda é o fruto de uma corte católica e rígida - a de Viena, que num acto de politica externa e diplomatica é obrigada a casar com o Delfim de França - Luis de Bourbon, o futuro Luís XVI. A presença de Maria na corte francesa tinha como objectivo máximo usar os potenciais políticos de forma a reconciliar as casa nobres (Habsburgo e Bourbon). 


Mas, na verdade, o deslumbramento pela corte francesa e pela vida palaciana de Versalhes, fez com que a futura rainha ficasse rodeada de luxo e de riqueza. Escolheu para estar ao seu lado, pessoas que considerava bonitas e elegantes (dispensando grande parte dos funcionários da corte), organizava festas, corridas, banquetes. Frequentava teatros, óperas, bailes. Partilhava charme e namoriscava com altos membros da nobreza. O Rei não se importava e até em certa forma incentivava a vida quase promiscua da sua mulher. A sua relação com determinadas amigas também ficou registada nas calendas da história. Mas foi também uma "humanista". Patrocinou teatro, estudou filosofia, política, história, literatura. Vestia o melhor e o mais luxuoso possível. Durante a sua estadia em Versalhes, França viveu um profundo período de divulgação cultural. 
É importante para a história pessoal da Rainha o Palácio Petit Trianon - espaço que serviu para Maria esconder as suas mágoas e talvez algumas gravidezes. Um pequeno luxo rural, rodeado de hortas e animais. Representa um lado mais simples da Rainha. 

Os tempos de paz na corte francesa tinha os dias contados. Os escândalos palacianos sucedem-se - e convém termos em conta que nesta época a política já ditava as suas sentenças e a monarquia era cada vez mais, um poder afastado. A estes enredos junta-se um inverno rigoroso, a falta de produção de alimentos, ao frio e a morte. O declinio de Antonieta tem o seu inicio. 
A Rainha era o símbolo vivo daquilo que os franceses odiavam e reprimiam na monarquia - o luxo e o gasto abusivo de dinheiro. Denominada de "madame déficit", sofreu uma campanha de difamação que a levou ao isolamento. A família real ficou presa no Palácio e mais tarde vão para Tulherias, sendo a sua sentença final sobejamente conhecida - guilhotina (morte por traição) a 16 de Outubro de 1793. 
A Revolução Francesa é o acontecimento histórico que marca o inicio da Época Contemporânea. 




Assim num olhar distante, temos isto tudo no filme, não temos? No entanto, será Marie Antoinette um filme histórico? 
Para mim não é um filme histórico, mas sim uma sátira histórica a uma determinada época da História.
É um filme sobre luxo, cultura, moda. 
Para mim ver este filme é quase que um deleite de detalhes estéticos. Este filme é semelhante a um desfile de Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen ou até mesmo da dupla nacional Storytailors. Este filme é fotografia, música, gula e revolução. É a personificação da abastança num período em que pessoas morrem com fome. 
São os vestidos, os sapatos, a decoração. É Rousseau, é Voltaire, Kant, Montesquieu, é literatura, é arte, é música. 
Coppola com os seus planos demorados e fabulosos silêncios, mostra uma mulher fútil, mas mostra também alguém que se preocupa com os filhos, uma mulher sem medos e disposta a defender sempre aquilo em que acredita. Procurando em tudo "o bom". Kirsten Dunst é exímia. 
A realizadora procura mostrar uma mulher "modernamente contemporânea "num país em que os ideais "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"  estão a nascer e sobretudo um país em que estes valores têm diferentes significados para diferentes pessoas e estratos sociais. 
Não deixo de questionar a aparente liberdade de um pais que condenou o luxo, que gritou bem alto os valores da partilha e da justiça social e que hoje em pleno século XXI, proibe a ostentação em via pública de objectos religiosos, sobretudo os muçulmanos. 



Não é um filme para todos, sobretudo para aqueles que embutidos nos valores bacocos da liberdade democrática da Revolução Francesa, não conseguem olhar  "para um além filme". É a história de uma mulher que durante a adolescencia foi abandonada numa corte estranha, com pessoas e valores estranhos. É a história da sobrevivência de uma mulher que se adapta à vida num palácio cheio mas vazio, em que  às suas próprias custas aprende e sobrevive à dificuldade de ser contemporânea num mundo recheado por valores tipicos de um Antigo Regime. 

Como todos os filmes de Sofia Coppola é obrigatório !

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3 comentários até agora:.

  1. CINE31 says:

    Afinal não vale a pena pedirmos o divórcio :)

    Subscrevo a maioria do que escreveste, mas como conheço mal a figura histórica não tive o suficiente para preencher os espaços entre as elipses. gostava que tivessem abordado mais esse lado humanista e de promoção da cultura.

  2. se a Sofia optasse por esse caminho - o da parte humanista, teria que ir mais além na cronologia do filme. e teria forçadamente de abordar a questão "Revolução" - abordagem esta que iria colocar um filme noutro lado que não o estético.
    a parte do fútil e consumista não ia casar bem com a questão anti-capitalista das teorias em torno da revolução civil.

    até porque ela inteligentemente não aborda a degradação da figura. tudo fica subentendido no fim do filme

    é o que eu acho

  3. "É um filme sobre luxo, cultura, moda."

    Sem dúvida, acima de tudo um exercício em estilo que nos faz questionar exactamente o que é "estilo".

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