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 Numa década rica em inspiração e diversidade cultural, um jovem casal decidiu passar uma noite da forma mais romântica possível: indo ao cinema. Ele, jovem e audaz, escolheu o filme para o serão. Ela, jovem e... nova, entrou na sala entusiasmada para mais uma sessão de pura magia. Oh, e como foi mágico! Oh, e como foi romântico! Tempos passados dessa noite inesquecível, nasci.

 Bem na verdade o facto de o meu pai ter levado a minha mãe a ver o Exorcista não teve minimamente a ver com o meu nascimento, mas isso não explicaria tudo sobre mim?

 Fazer uma análise a um filme como o Exorcista é como espancar um morto. "Para quê? Olha, porque é divertido! Na falta de zombies é o que se arranja!". Penso que a maior parte já viu este filme ou está familiarizado com o que se passa pelo que não me vejo a correr um grande risco de lançar spoilers pois já todos falaram da cena em que a Regan roda a cabeça a 360º. Ainda assim, eu gostava de dar a minha perspectiva sobre o filme e como foi descobri-lo. Irei falar mais à frente sobre um bocado da história que embora não vá ter spoilers importantes, obviamente terão uma melhor experiência se virem o filme antes de lerem coisas por um gajo que tem a mania que percebe de cinema.



ANTES DE EU VER O FILME


 Actualmente eu estou a desfrutar de viver os deliciosos e surpreendentemente complicados anos da casa dos 20 e na verdade só no ano passado é que vi, finalmente, este filme. Como levei a entender, o Exorcista tem uma história curiosa na minha família. Desde garoto que oiço os meus pais, bem, o meu pai a falar sobre o filme. Não só me falava do filme como se fosse preferível eu meter-me em drogas do que o ver como também me mostrou mais tarde o tema principal do filme, a música de sensivelmente 25 minutos composta pelo Mike Oldfield que tinha então comprado no serviço de encomendas para o estrangeiro chamado eMule.



 Confesso que na altura só gostava do inicio da música não só por me suscitar medo como por a minha mãe não suportar as lembranças que a música lhe traz. Também não lhe ajudava o facto de a Tubular Bells ser o toque monofónico do calhamaço que era o Ericsson do meu pai, na altura.

 Sempre admiti ser um cagão no que toca a filmes de terror, pelo que raramente os vejo. Na verdade estou muito mais interessado na ciência de fazer um filme de terror do que propriamente ver um. Mas o Exorcista por mais aterrorizado que eu estivesse só de pensar nele por culpa das histórias do meu pai e de ele me ter feito jogar o Scary Maze, de alguma forma eu sentia-me atraído pelo filme. Todos os mitos e factos em torno do filme me cativavam, como a questão de haverem ambulâncias à porta dos cinemas para as pessoas que não aguentavam. Eu estava determinado em ver o filme mas queria que a minha estreia fosse de forma especial. Então, no ano passado, vi o filme em família... incluindo com a minha mãe que afinal não gritou nenhuma vez, acho que no fundo tem também um carinho especial pelo filme... já para o Silêncio dos Inocentes que o meu pai também a levou a ver não posso dizer o mesmo mas isso é uma história para outra altura. Em 2015 ou assim.

 O mal de a minha infância ter ocorrido nos anos 2000 é que não há muito que choque os jovens de hoje em dia. Éramos pirralhos quando vimos o Saw e outras coisas, não que isso meta medo mas é para verem como já estamos bastante anestesiados. Eu, por exemplo, jogava Thrill Kill quando andava na primária e esse jogo faz do Mortal Kombat parecer o Pee-Wee Herman. Má analogia, o Pee-Wee é bastante assustador mas o que quero dizer com isto tudo é que tenho amigos que se desmancham a rir com o Exorcista. Troçam das cenas e ridiculam que seja este O apelidado Filme mais Assustador de Sempre!


 Bem, mesmo para um cagão como eu, o filme não me meteu medo nem na primeira vez que o vi, com a excepção da cena da Spider-Walk, credo! Admito, também, que me dá sempre vontade de rir quando a cama da Regan está a abanar por todos os lados e a mãe salta para cima dela. Mesmo assim, dou o meu voto para o Melhor Filme de Terror de Sempre Apesar de Eu Ainda Não ter Visto Todos os Filmes Feitos na História.

 Eu não ligo muito à noção dos cinéfilos de "os filmes que envelhecem bem ou mal" pois mesmo os que não se adaptam muito bem aos tempos de hoje, levam-me para uma época em que era o que se fazia ou que em tempos foi impressionante. Claro que dou bastante valor aos efeitos práticos do primeiro remake do The Thing, do Jurassic Park ou do Blade Runner, mas mesmo esses filmes não causam o mesmo impacto de outrora. Porque é que continuam a ser apreciados? Porque têm um charme temporal...além de serem bons filmes claro. O King Kong de 1933 é do mais datado que há mas se pensarmos em todo o trabalho dos efeitos especiais que fizeram de uma história tão simples em algo tão épico, é de admirar! Não se trata do realismo dos efeitos visuais de um filme mas sim da criatividade. Assim, o Exorcista pode ser velhinho em termos de horror (os efeitos continuam incríveis) mas se pensarmos que foi feito no inicio dos anos 70... cum caraças!


O FILME


I see dead people! Well, not right now, but soon!



 Tudo o que eu esperava do filme estava errado. Não me assustei, não tive problemas em dormir mesmo tendo visto o filme à noite e, talvez ao contrário do que também muita gente que não viu o filme pensa, não se trata de uma rapariga possuída aos primeiros 20 minutos e o resto nada mais que o acto do exorcismo. Para minha surpresa, o filme é muito mais inteligente do que isso. A famosa parte do exorcismo só ocorre nos últimos 20 minutos ou coisa assim, vá. Decepcionante? Não após ver o filme. O filme é inteligente ao ponto de enfrentar tanto os ateus como os religiosos pois a história é sobre o conflito entre levar tudo à razão de ser e simplesmente aceitar que há coisas por explicar.


 Durante a maior parte do filme a mãe de Regan, Chris (interpretada de forma espectacular pela sempre magnifica Ellen Burstyn) pede ajuda a todos os médicos e psicólogos que efectuam todos os testes possíveis na pobre rapariga. As explicações até fazem sentido ao inicio mas eventualmente Chris começa a duvidar das capacidades dos profissionais até um dos médicos sugerir a prática de um exorcismo. Mesmo assim, o exorcismo é tratado aqui como uma cura psicológica e não propriamente religiosa. Ao mesmo tempo, acompanhamos a vida do Padre Karras que após o sofrimento e morte da sua mãe começa a questionar a sua própria fé e por ser também o psicólogo da paróquia ou lá o que é aquilo, começa cada vez mais a ver o mundo por esse prisma. Eventualmente Karras é a última esperança de Chris e, a pedido desta, Karras tem que voltar a ganhar a sua fé no combate ao demónio Pazuzu que possui Regan.


 Portanto não é simplesmente um filme de terror, é também um thriller psicológico (com um toque policial à mistura) que mexe tanto com as personagens como com a audiência pois apesar de sabermos de antemão o que se passa, tudo o que é explicado faz sentido e quando deixa de fazer as personagens demonstram que também não são estúpidas. A história é muito mais complexa e interessante do que eu esperava. Eu só vi a versão nunca antes vista (apesar de já ter revisto o que destrói completamente o título que acabou por ser naturalmente abandonado nas versões futuras mas não vamos discutir marketing) que contém mais cenas pelo que não sei dizer, além da aterradora cena da Spider-walk, quais cenas é que foram adicionadas mas em todo o caso acho que se podiam cortar uns bons 10 minutos ao filme ou pelo menos trocar algumas cenas por outras com mais peso. Mas não é nada que estrague a experiência, sou só eu a melgar.


Foi daqui que me inspirei para a foto da minha carta de condução


Se eu fosse uma pessoa importante e com um corpo atraente, eu nomeava a actuação da Linda Blair como Regan para o Top 5 de Melhor Actuação de Sempre. Causa arrepios na espinha e onde houver pêlos, meus amigos, eles movem-se que nem lepismas quando acendemos a luz! E mesmo para os jovens que se riem com o filme, pensem nisto: é uma criança a actuar daquela maneira. E é o facto de ser uma criança que dá toda a força ao filme. Conhecemos Regan como a miúda mais dócil do mundo. Recentemente revi o filme com a minha irmã e disse-lhe: "Não te dá vontade de a ter como filha?" Dá mesmo vontade de lhe ler um conto-de-fadas sobre uma mulher sem personalidade que no final consegue tudo na vida só pelo seu aspecto físico, após ela beber um copo de leite morno! Mas é aí que o filme nos trama! Mostra-nos o quão ela é fofinha e a relação bonita que tem com a mãe e depois choca-nos com a sua transformação gradual para a coisa mais assustadora que já vimos! Um pouco como a Lili Caneças portanto! Mas mesmo quando ela faz diabruras (..literalmente), eu disse à minha irmã "...continuo a querer que ela seja minha filha!"

Não são só as imagens arrepiantes e o filme a brincar connosco ao estilo do Fight Club que nos deixa desconfortáveis, é também o som, tanto pela banda-sonora como pelos efeitos sonoros, especialmente o voice-over. Penso que não estraga nada eu dizer que a voz do Pazuzu é feita por outra pessoa que não a Linda Blair... quer dizer, acho que é óbvio. Em algumas cenas a falsidade do truque é tão evidente que distrai mas acho que, no fundo, não fica assim tão mal pois a personagem está possuída, a própria mãe diz que aquela não é a sua filha e tendo em conta que se trata da voz de um espírito pode-se aceitar que a voz pareça "flutuar". Todo o crédito vai para a locutora de rádio, a falecida Mercedes McCambridge que deu uma prestação aterradora e memorável ao filme.

Se ao menos fosse esta a voz do outro lado da Rádio Comercial...


 Não sabemos como é que a Regan é possuída mas talvez assim seja mais aterrador pois a ignorância é o que mais nos assusta. No entanto, é nos explicado o porquê de ser possuída e daí resulta uma das melhores falas do filme mas não vou estragar para quem ainda não viu. O único aspecto do filme que talvez merecesse um melhor desenvolvimento é a ligação entre o Padre Merrin e o demónio Pazuzu. O filme explica que "eles já se conhecem" e que o Padre Merrin é dos que tem mais experiência em actos de exorcismo pois já os efectuou em África, levando assim a crer que o Padre Merrin já teve que lidar com o Pazuzu antes mas tudo isso é apenas mencionado. No entanto, uma vez mais, a ignorância acaba por funcionar a nosso favor pois desta forma nunca vimos um exorcismo nem sabemos o que está prestes a acontecer à Regan ou até que ponto será a sua transformação e destino. Para quem não conhece as primeiras aventuras do Padre Merrin, tal pode ser visto nas prequelas do filme, para os mais interessados.

 E por falar em prequelas, existe um total de 5 filmes sobre esta saga. Nenhum outro filme é tão bom como este original mas da minha parte digo que vale a pena verem o The Exorcist III e a prequela do primeiro filme com o fantástico título de Dominion: Prequel to the Exorcist. O Exorcist II: The Heretic fica bem sem ser visto mas apesar do potencial completamente desperdiçado, tem alguns aspectos interessantes nomeadamente o James Earl Jones. Quanto ao Exorcist: The Beginning é sensivelmente a mesma história do Dominion mas mais comercial. A sério, foi praticamente esse o motivo pelo qual foi feito. A história sobre a existência desses dois filmes é engraçada mas isto foi só para dar um breve olhar sobre a saga que, apesar de ter 5 filmes, são completamente ignorados por o primeiro filme ser tão poderoso.



 The Exorcist chega a ser mais do que um filme. É um testamento sobre a influência que esta arte pode ter sobre nós e que qualquer género, seja ele um drama, um musical ou um filme com a Meryl Streep, pode ser uma obra-prima capaz de sobreviver aos testes do tempo pois será recordado e passado de gerações para gerações. Apesar de os Oscars serem uma anedota e quase uma irónica falta de respeito à área que premeia, não deixa de ser admirável que o The Exorcist tenha sido o primeiro filme de terror, e durante muito mais tempo o único, a vencer um Oscar (neste caso venceu 2) e a ser nomeado para Melhor Filme do Ano. Obviamente nem toda a gente gosta do filme e muitos apresentam razões completamente válidas, mas ninguém pode refutar que este filme merece também o prémio de ter o Padre mais Bad-Ass da história dos cús-maus! Assim que aquele tipo entra casa dá para ouvir o tema do Terminator a ecoar e sabemos que acabaram-se as brincadeiras! É a minha parte favorita!


 Vou deixar aqui o trailer do lançamento do Blu-Ray que não só nos recorda de várias cenas míticas como serve para os interessados espreitarem esta versão com extras exclusivos. Eu, pelo menos, sei que irei comprar um dia.



 Vou ainda deixar esta música do filme para ouvirem até ao fim com as colunas altas à noite e de luzes apagadas, incluindo o monitor.





 Todos conhecem este filme e já todos falaram sobre ele mas eu não pude deixar de partilhar também a minha admiração a este meu filme de culto que me acompanha, fascina e atormenta desde criança.







3 comentários até agora:.

  1. Anónimo says:

    Excelente trabalho!


    Ass: Bruno Caio

  2. Obrigado Bruno =)

    Assinado: Outro Bruno

  3. CINE31 says:

    Lindo, obrigado por partilhares! A introdução ao texto está genial!!
    Eu só vi o filme já lá para os finais da adolescência, mas impressionou-me para c@*****!
    Como dizes, pensar que é uma criança que passou por aquela actuação, fazer e dizer coisas terríveis, é arrepiante... tenho que rever, talvez quando tiver um leitor de Blu-Ray

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