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Este é um dos meus filmes favoritos. Vi-o pela primeira vez em 2005, e incrivelmente, as únicas linhas que escrevi neste blog sobre esta fita foram: "Cinema Paraiso (1989, Giuseppe Tornatore), a bela e nostálgica história de um projeccionista e do seu aprendiz durante algumas décadas, no cenário de uma pequena vila na Sicília." Uma falha minha inacreditável, que vou colmatar agora.

A versão que conheço do filme é a versão mais curta. Apesar de possuir em DVD a versão original, o "Director's Cut" com cerca de mais uma hora de cenas "novas", tenho evitado conscientemente ver essa versão, com receio de "estragar" (na minha mente) a experiência de assistir e emocionar com um filme quase perfeito, uma ode de amor à sétima arte, à sua paixão e maldição. Além disso, a quase totalidade das críticas que li online afirmam que as cenas extra mudam muito o sentido do filme, retirando-lhe algum do encanto.  O filme de Tornatore tem uma carga nostálgica imensa, um misto de inocência e tragédia. Fascinante como o modo de ver cinema mudou desde as épocas retratadas, quando ir a uma sala era um acto social, tanto para as classes mais educadas como para as mais pobres. Segundo relatos e documentos[1], na minha cidade ( na mesma altura, uma pequena vila de pescadores pobres e indústria conserveira) a relação do público com os filmes era em tudo semelhante, uma forma de escapismo ao duro dia-a-dia. Pormenores deliciosos, como os casais que namoravam no escurinho, o homem que pagava bilhete para ir dormir, o rico que cuspia para os pobres nos lugares abaixo, o padre da terra que censurava previamente os beijos e outras indecências, etc. Também de destaque é a reprodução histórica e social da pequena cidade de Giancaldo, e as suas mudanças desde os anos 50 até aos anos 80 do século XX. A minha experiência com este filme é bem pessoal, porque alguns dias depois de ter visto o filme pela primeira vez - numa esplanada ao ar livre - frequentei no mesmo local, um curso de projeccionista de 16 e 35mm, organizado pelo CineClube de Olhão e ministrado pelo projeccionista do Cinalgarve. Uma experiência inesquecível!




Além da relação paternal do jovem Totó (Salvatore Cascio) e o velho projeccionista Alfredo (Philippe Noiret), que admite Totó nos bastidores da magia da cabina de projecção, o filme lida com o modo como o cinema consome a vida de Alfredo e de Totó. Paralelamente, quando Salvatore (o verdadeiro nome de Toto) já é um jovem adulto (Marco Leonardi) vive uma paixão pela bela Helena (Agnese Nano) - filha do banqueiro - um romance que tem muito de cinematográfico, pela excepção da falta do final feliz à moda de Hollywood. Salvatore, aconselhado por Alfredo a  abandonar a sua terra Natal, cresce para ser um realizador de cinema famoso (Jacques Perrin), mas amargo, que só regressa a casa para acompanhar o seu amigo à sua última morada. E a cena final, depois das ruínas do antigo cinema, foi para mim umas das cenas mais emocionantes e simplesmente belas da sétima arte, toda uma homenagem e catarse sublinhada pela magnifica banda sonora de Ennio Morricone. Molto bello!


Trailer de Cinema Paraíso:


Trailer de Cinema Paraíso (Director's Cut):


[1]Excerto de "100 Anos de Cinema em Olhão"[Download aqui], da minha autoria:



Leonel Baptista (1995) descreveu o próprio acto de ir ao cinema, em tempos mais difíceis e de pouca instrução, como um espectáculo de diversão por si só, com brincadeiras que começavam logo na fila para as bilheteiras e se prolongavam para o interior do salão, tanto na plateia como na geral. Décadas de paródia e diversão inocente (...) que em anos mais recentes foram substituídos pelo silêncio no escurinho do  cinema, com a excepção de sessões povoadas de adolescentes – e alguns mais velhos - que se comportam como se achassem numa esplanada de café, sem respeito pelos outros espectadores. Outro dos aspectos curiosos sobre o modo como os olhanenses dessas décadas passadas encaravam a experiência de ver filmes, diz respeito á deturpação que os nomes dos actores estrangeiros sofriam, principalmente os mais famosos. 

Nas palavras de Leonel Baptista (1995): “que não havia actores melhores/ou, pelo menos, de preferência mais destacada/que o Pale Enrêde [2] e o Ró Flin [3]/para “fitas de piratas e de espadêrada”

[2] Paul Henreid
[3] Errol Flyn

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4 comentários até agora:.

  1. A versão mais longa acrescenta complexidade à relação de Alfredo e de Toto e os romances da sua vida ganham maior destaque, para além da infância. É, também, um dos meus filmes favoritos e encorajava-te sinceramente a assistir à versão mais longa.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD – A Estrada do Cinema «

  2. CINE31 says:

    Roberto, estou a considerar essa hipótese :-) tem piada, na altura que comprei o DVD, a maioria das criticas on-line que li eram todas em sentido negativo - em relação à versão original mais longa - e no entanto as opiniões que tenho vindo a recolher nos últimos dias, dão preferência à mais longa :-)

    Abraço

  3. Só tinha visto duas vezes a versão curta e hoje vi a longa, não desiludiu nadinha, continua no meu top 10 de filmes.

  4. CINE31 says:

    Bruno, passados estes anos todos continuo a fugir da versão longa. Mas, já vi que não vou poder continuar a fugir para sempre! :)

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