Terça-feira, Março 07, 2006

COISA RUIM

Sinopse: Uma família citadina muda-se de armas e bagagens para um grande e velha casa numa pequena aldeia que fica “para trás do sol-posto” e deparam-se com um ambiente físico e humano muito escuro e sinistro, onde ainda se realizam exorcismos a jovens com o demónio no corpo, e onde se tenta manter o mal – sem forma ou assumindo todas as formas – afastado, seja através da religião oficial (na figura de um padre veterano que já perdeu a conta ao exorcismo que fez ao longo da vida, e que já viu muito; e um padre novato, ainda impressionável com o que se passa à sua volta) ou das mais antigas e diversas crendices. A família protagonista não está propriamente entusiasmada com a mudança para a casa escura, mas realizam o desejo do pai de família, que recebeu a casa de herança, e que farto (quem o pode condenar?) da vida na cidade grande decidiu unilateralmente trazer a esposa (tal como o marido, uma mulher formada e cerebral que progressivamente irá confrontar o que acredita com os fenómenos que se desenrolarão na velha casa) e os três filhos: o mais novo, um adolescente preocupado com a ausência de TV Cabo e de tomadas onde ligar a consola de jogos; a filha do meio, jovem mãe solteira a braços com um bebé e com a incompreensão do seu pai; e o filho mais velho, um estudante universitário preocupado com os exames e com a sua independência. Todos serão espectadores e intervenientes em vários incidentes e situações – desde previsões de morte, aparições fantasmagóricas, poltegeists, sessões espíritas (organizadas pelos brincalhões da terra), e pelo vingativo segredo antigo enterrado nos terrenos do casarão – que modificarão para sempre as suas personalidades e atitudes, culminando num trágico clímax.

Crítica: Esta incursão do cinema português no reino do fantástico, mais do que uma película de terror é uma película de mal-estar, que consegue – sem grandes artifícios – introduzir inquietude nos nossos cérebros – mais ou menos – racionais. Reflecte uma luta entre as crenças urbanas e rurais, o lógico e o supersticioso. O cenário quase total do filme é uma aldeia isolada e opressiva, magnificamente caracterizada – sem pressas – por imagens da natureza, que talvez por si só não resultassem sinistras, mas que apoiadas numa grande e cuidadoso trabalho sonoro consegue criar uma magnífica ambientação. Eu não queria ficar na rua daquela aldeia depois do pôr-do-sol e de todas as portinhas e janelas serem imperiosamente encerradas, para manter o demónio do lado de fora. Pouco mais se pode falar sobre o enredo, além do básico, sem revelar pormenores importantes para o avançar da história, que sem ser tremendamente original – principalmente para quem conheça muitas histórias de mistério e fantasmas – é uma nova esperança para que em Portugal se comece a realizar filmes de inegável qualidade artística e simultaneamente compatíveis com o público, sem ter que recorrer exclusivamente à promoção e apelo de cenas de sexo (vocês sabem do que estou a falar) para atrair os espectadores ao escurinho do cinema e verem obras nacionais. Existe a necessidade de criações que combinem a arte e o comercial, o que é possível com muito trabalho e vontade. O cinema não se pode dividir somente em “filmes de intelectuais para intelectuais” e “filmes pipoca”. Digno de menção é o extraordinário trabalho de interpretação de todo o elenco, que contribui para a consistência de um trabalho final que poderia ter enveredado por um caminho mais fácil, com monstros ruidosos e “planos MTV” (ambos compreensíveis quando o objectivo final é outro), mas resultou numa obra séria e elegante, com os sustos utilizados com contenção e sem histerismos, recorrendo a uma banda sonora atmosférica e interessante, que ocasionalmente recorda filmes como “The Villlage” e “The Others”, ou o mal que não se vê, mas que se sente.

Creio que temos um filme de culto!

Pontos Altos: Ter sido escolhido para abrir o Fantasporto, a ambientação visual e sonora, os actores.

Pontos Baixos: Sente-se um pouco a falta de alguns minutos mais intensos, talvez pudesse ter ido um pouco mais além.

Veredicto: Muito interessante filme que combina o folclore de terror nacional com situações mais ou menos inesperadas, para criar uma película sinistra, que não fica atrás do que se pode fazer no estrangeiro, e que se sobreviver à trituradora da crítica pseudo-intelectual irá ficar na história do cinema português, por mérito próprio.

1 comentários:

  1. Já que niguém deixa commnents, lá tenho que vir eu aqui. Esta critica também está publicada no site do Cinema Xunga. Corram lá, mas corram mesmo, e vaiem (como se diz na minha terra)ver as outras criticas. é um site muito interressante, e não tou a dizer isto só porque eles puzeram lá duas criticas minhas...

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