Comércio da Sétima Arte

George Lucas é um menino perto dos constantes esforços para sanitizar a arte dos filmes. Bem antes da sua brincadeira com as Edições Especiais da Sagrada Trilogia, existiam cortes para TV, Home Video, para exibição em aviões, etc. Quando o amigo Spielberg se aventurou a modificar o "E.T.", isso foi amplamente divulgado para o grande público. Hoje existe muito mais informação e conhecimento do lado dos espectadores e coleccionadores, mas cada vez mais os estúdios vão censurando pela calada: cortar um pequeno palavrão, uma frase inteira, algumas cenas eliminadas pelo revisionismo da história, enfim, onde vai parar de cortar a faminta tesoura da censura?

Pessoalmente, ainda incluo nesta categoria outros tipos de alteração: mudar a identidade visual da película através da remoção de detalhes intrínsecos ao meio fílmico aka o "grão" da imagem ("Aliens", porra Cameron), color correcting agressivo (o original "The Matrix") e pior que tudo: tornar essas edições as únicas versões facilmente disponíveis nos vários formatos (sim, Lucas, estou a olhar de lado para ti). 

Preservar filme, sim, é necessário. A nossa sociedade tudo desculpa em defesa do lucro fácil; para os investidores merceeiros é preferível um filme em DVD ser vendido a toda a família, do que um com a bolinha vermelha que só é comprado por um pequeno conjunto de freaks. Escolher não restaurar um filme por méritos estritamente monetários é também uma forma de censura. Tal como não informar claramente o consumidor final.

E uma versão nova, 4K mas com atores sem poros na pele, mas com detalhes destruídos pelo processo, edição com censura, revisionismo e puritanismo, distorcida da intenção original, torna-se o exemplar padrão que é exibido na TV, no streaming, e está á venda em lojas online de discos 4K e Blu-Ray. A juntar a isto, temos os cada vez mais comuns casos de plataformas que eliminam remotamente elementos da colecção digital do cliente. Preservar é cada vez mais obrigatório.

E uma remasterização séria pode eliminar riscos e erros, melhorar sem substituir, e por isso é importante que os responsáveis das decisões respeitem o que para eles são apenas produtos, mas para nós - os 'consumidores' da sétima arte - são obras fruto de um tempo específico, de uma mentalidade; de técnicas e orçamentos disponíveis, em suma opções que fazem o filme o que é. 

Vejo com gosto um recente ressurgir da procura pelos filmes em formato físico, com discos que podemos manipular, guardar nas estantes e apreciar os detalhes da embalagem ou opções extras. Mas, que versões estamos a colocar nas nossas midiatecas? A original com som e imagem melhorados, ou a versão estéril aprovada pelos homens das corporações?

O futuro da nossa memória está em risco.

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