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texto original em girl on film 



Na moda, chama-se Alta-Costura “à criação em escala artesanal de modelos exclusivos, frequentemente com bordados exclusivos, pedras e metais preciosos, vendidos por altos preços para clientes abastados”. Lincoln de Steven Spielberg é um filme de Alta-Costura, desenhado para agradar a Academia, uma elite esclarecida e não para os espectadores comuns e mortais.



“You need three things to make a great Lincoln film: 
a great script, a great actor, and Lincoln’s beard - Sally Field.”



De facto, amiga Sally, num ano em que o homem se fartou de caçar vampiros, essa receita devia ter sido o suficiente ou pelo menos - o meio caminho - para o sucesso. 

Quero, antes de avançar mais, esclarecer que Lincoln está longe de ser “um mau filme”, mas – segundo os meus critérios - está muito afastado de ser “muito bom”. E acreditem que me custa escrever estas palavras, pois a personagem central de tudo isto é uma das pessoas mais importantes na minha formação enquanto pessoa e sobretudo enquanto residente do Planeta Terra.
O filme foi feito para aqueles que conhecem a História dos Estados Unidos da América – algo estranho para um país que gosta de ensinar o Passado “via filmes”. E bolas… Steven Spielberg sabe contar “a História”. Abordou a escravatura em Amistad, criou cenários de guerra em Saving Private Ryan, e foi psicologicamente profundo em Schindler's List e Munich. Mas em Lincoln fiquei com a estranha sensação que tudo foi contado a “medo”.

Muitos são aqueles que argumentam que o filme aborda os últimos meses de vida do Presidente e que por isso não podia contar muito mais... Certo, tudo bem, mas o Dia D durou um dia e o Steven tratou-o tão bem. O problema da escravatura é passado para um segundo plano sendo que a política de enredos, votações e compra de simpatias pela causa da 13ª Emenda da Constituição ganha o plano principal.
E onde é que anda Lincoln no meio disto tudo? Anda por lá, perdido com o seu "xaile" e cartola... cabisbaixo e com um sentido de humor pouco documentado pelas calendas da História. Isto é quase ofensivo, se pensarmos que o filme é uma espécie de biografia daquele que foi o líder de um país desunido, em guerra, ausente de respeito para com aqueles que tinham uma cor diferente do normal e na procura de uma definição de Democracia para todos.




Obviamente que Daniel Day-Lewis não está mal, isso seria quase impossível. Há um estudo e investigação da personagem histórica, há uma colagem física e até a voz foi trabalhada. É claro que por tudo isto surgiu a nomeação para o Óscar de Melhor Actor. E agora perdoem-me o desabafo, mas aproveito para dizer que Joaquin Phoenix é o meu vencedor. É que Daniel dotou a sua personagem de uma linguagem quase teatral.
Sally Field está brilhante como Mary Todd Lincoln - uma mulher amargurada com a vida, atormentada pela morte prematura de um filho, doente, mas muito determinada nas suas ideias, valores e posição política. 
No filme são abordados três filhos, mas na verdade o casal teve quatro filhos (sendo que só dois chegaram à vida adulta e apenas um sobreviveu à morte da mãe). Do elenco, merece igualmente destaque - Tommy Lee Jones como Thaddeus Stevens - o líder republicano e congressista da Pensilvânia, defensor fervoroso da abolição da escravatura. Uma personagem daquelas que, quando tem tempo de antena, centra para si todas as atenções possíveis. 

Steven Spielberg, muito conhecido pelo exagero na exploração de emoções e sentimentos, consegue um equilíbrio na exploração destes detalhes, mas dota o filme de um ritmo demasiadamente lento, facto que a iluminação, cenários escuros, caracterização e roupa das personagens - apesar de tudo ser estrategicamente bem feito e pensado - não dota o argumento de ritmo, aliás, consegue torna-lo tão lento que chega a ser sufocante. 
A luz utilizada nas cenas de Lincoln, a preocupação em mostrar o seu perfil, a sua expressão pensante e forte é um dos pontos mais fortes do filme, e nota-se que muito inspirada nos retratos e na documentação histórica em torno do 16° presidente dos Estados Unidos da América. 




Não é um filme sobre Lincoln, é um filme sobre a votação da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. E são estas as palavras históricas que estão em causa:

"Section 1. Neither slavery nor involuntary servitude, except as a punishment for crime whereof the party shall have been duly convicted, shall exist within the United States, or any place subject to their jurisdiction. 

Section 2. Congress shall have power to enforce this article by appropriate legislation"


3 comentários até agora:.

  1. Sam says:

    Discordo ligeiramente.

    Considero que "a política de enredos, votações e compra de simpatias pela causa da 13ª Emenda da Constituição" é, precisamente, o ponto fulcral e de principal análise deste LINCOLN — e se o Presidente do título "anda por lá" foi porque coadjuvou e incentivou essa prática (tão contemporânea...) nos meandros políticos da sua época, suscitando ambiguidade na percepção desta figura histórica. A lentidão do filme apenas colabora para a apreensão dessa densa temática aqui construída por Spielberg.

    Por fim, e correndo o risco de ser polémico, mas cuidado com frases como "ausente de respeito para com aqueles que tinham uma cor diferente do normal"... As interpretações/reacções podem ser muitas. E não as melhores.

    Cumps cinéfilos.

  2. Sofia says:

    Olá Samuel

    Pois... também discordo ligeiramente da tua refutação.

    É de facto o ponto central, mas não devia. E acho uma falha que Spielberg se tenha baseado nessa política de enredos e bastidores quando podia ter tido como personagem principal não a 13ª Emenda, mas sim um homem que movimentava massas e que tinha (como poucos) o dom da palavra. Lincoln fez campanha fervorosa por esta alteração na Constituição. Lamento, mas não a vi no filme. A lentidão do filme, não me fez apreender melhor a temática, mas fez-me dormitar entre cenas.

    Quanto à segunda parte - a da polémica, só têm que ter cuidado aqueles que lerem a frase com a intenção que ela não tem. Podes substitui-la por: "brancos ausentes de respeito para com os pretos". Felizmente sei muito bem aquilo que caracteriza a minha formação pessoal em relação a isso e os muitos amigos pretos, ciganos, amarelos, cinzentos, etc. etc. etc. que tenho, podem comprova-lo.

    De facto, escrever sobre filmes e dar a interpretação pessoal sobre aquilo que se vê é muito delicado. Talvez tivesse sido mais simples ter escrito "Lincoln poderia ser um filme muito melhor e é apenas um filme razoável (... ) e não me cativou muito".

    Cumprimentos

  3. Sam says:

    Sofia,

    pessoais ou não (por mim, tendo a criar algum afastamento "íntimo" de qualquer filme a que assisto, pois cada um identifica-se mais com este ou aquele posicionamento crítico), são apreciações díspares sobre o mesmo filme — e considero muito saudável que as mesmas existam.

    Quanto à "polémica", não pretendi fazer nenhum juízo de valor sobre tolerância racial. Como tenho o (mau?) hábito de avaliar sempre cada frase que leio, o conteúdo desta "saltou-me" à vista. Porque, de facto e como bem salientas, há sempre quem a possa encarar de forma diferente da intenção do autor.

    Cumps cinéfilos.

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